Wednesday, January 20, 2010

As últimas vestes

Vou vestir os sapatos.
E que nem mais um caco
de tristeza venha cá
me sangrar os pés.

Você nunca me viu assim,
talvez nunca verás.
Você nunca olhou nos meus olhos,
para ver o profundo nada
que agora vem me afogar.

Ainda com os cabelos
vestidos pelo chapéu
quero assim, os cabelos
secos neste temporal.

Talvez seja como partir,
deixar teus cabelos nas
minhas mãos, como o afago
macio que fogueia o coração.

Com o paletó espero,
nada mais que a figura
imponente de alguém
que não demonstra o coração.

Assim, antes da hora de partir
venha a tristeza me buscar.
A lua é uma cama e as estrelas
um manto de solidão.

E de sapatos, chapéu
e paletó vou sair para
a rua, onde a chuva lave-me,
o coração que sangra e suja a roupa.
A vida, como é triste ao ver
quem se quer partir.

Igor Felix

Saturday, January 16, 2010

Obrigado, amém

Obrigado paizinho do céu.
Hoje lhe agradeço pela paz,
pela saúde e pelo amor.
Agradeço por tudo que há
aqui dentro.
E agradeço a todos que
regam esse amor que trago
tão calmo e forte no peito.

Te agradeço meu pai
por me mostrar muitos
dos erros que não cometerei
e por me ter bem em cada
oração que faço a você.

Agradeço pelo meu paizinho,
pela minha mãezinha,
pelo meu maninho e pela
minha maninha,
agradeço com muito amor
pela minha família.

Agradeço pela saúde de minha
canina kaya, bitus ou bissão
que nunca me falta com amor,
sinceridade ou carisma.
Que me encharcar a cara com a
língua e me recebe como se
eu tivesse partido há tempo assim,
de perder a conta nos dedos.

Meu pai, agradeço por descobrir
a poesia e por poder viver
esta vida, que não seria nada
se me faltasse a graça
das crianças e as lições
aprendidas.

Obrigado senhor por
emprestar meu tempo a estas palavras,
mesmo que muito mal escritas
já que publicadas e não relidas.
Agradeço senhor pela graça das pessoas,
pela beleza das músicas,
por sabe que existe sim, senhor,
alguma chance na vida,
de chegar a este mundo e um dia partir
sem ao menos deixar mágoas
nos olhos das pessoas queridas.

Amém.

Igor Felix

Monday, January 11, 2010

O medo

Encanta a terra cada passo
pisado e apagado.
No que encanta a nós tocar
a terra com pés descalços.

No que se caminha adiante
não há mais grama nem sombra.
Então tudo é pedra, petróleo,
máquinas e poluição.

Tão adoecido e longe de onde
antes era teu chão, tudo vai indo.
Os pássaros, os peixes, as árvores.
as pessoas e quem sabe a paz.

E tão sobrevivido, acolhido
pelos rochedos e penhascos
encontramos o deserto.
Deserto onde andamos e de onde viemos.

A noite fria corta a pele,
não há nada nem ninguém.
Talvez não tenha nem algo
para se lembrar.

É quando andamos tanto
e chegamos a lugar algum.
Quem sabe, outro lugar.
Quem sabe?

Igor Felix

Translação

Eu que preciso tanto escrever
palavras que pouco me deram chances.
Eu que preciso de alguma poesia
que tanto demora e insite em não vir.

Eu que preciso ao menos
de mais uma dose de dopantes e solidão.
Eu que estou tão calmo e saciado,
que exageradamente me calo em tormentas.

Eu que não aperto mais o sapato
e meus cadarços se entregaram aos nós.
E mesmo eu que tanto troco passos sem rumo,
não sinto a imensidão do mundo num dia tão só.

Eu que atravesso a noite tão inerte por fora
e renascendo cada pedacinho de vida
no que existe por dentro.

Eu que só olho pra dentro.
Berrando ameaçado por 4 paredes.
Eu que só olho para o mundo.
E grito numa forma de espaço
entre os pés e o par de sapatos.

Igor Felix

Capeta dos Infernos

Vida que te esperei,
e olha cá a paciência.
Olha que não te vivi
paciente a te esperar.

Vida que te vi
como vivendo, como morto.
Morte, que te encontrei
com os pés sobre o inferno.

Arranquem já a tiros,
murros e gritos as coroas
do capeta.
Vamos invadir o inferno.

Vamos apagar as chamas,
plantar grama e fazer crianças.
Vamos onde devemos
senhores de si e da vida.

Vida que te mereço.
Que tanto vivi e ainda
pouco de te aprendi.
Mas que por deus sobrevivi.

Vida que nasce e morre
num tempo que nunca envelhece.
O tempo que leva
para que o sangue seque.

10, 20, 40, 100.
Arranquem a coroa do rei.
Faz o que te serve.
Por hora é tudo da lei.

10, 30, 50, 1000.
Vá seguir tua vida
capeta dos infernos.
Na pobreza da riqueza,
no pobreza sobre a mesa,
na vitória do vitém.

Igor Felix

Perdido por ai

Sinto que te digo
com mistérios o que
por fim não sinto.
E por fim, não minto.

Como é doce o dom
da tua face e quente
o dom do teu corpo
que desejo e nunca me deitei.

E assim, sinto
como sentir saudade.
Como alguém que fica
e parte.
E volta tarde, sem jamais
voltar.

Dai o mundo que
era feito de noite e poesia,
é só desespero e solidão.
Dai tudo que era assim,
fica distante e sem fim.

E talvez, mesmo sem dizer-te
o que sinto, ou que deveria dizer.
Falo-te da aflição das palavras,
que sempre procuram na poesia
a beleza que sempre procurei em você.

Você

Igor Felix

Clara Lua

Clara Lua,
lua que namora minha amada.
Que és o dom da poesia.
Que és a dona dessa noite.
Que és o abrigo de minha morada.

Lua clara,
clara luz da sua presença.
Que és do mundo a pureza da criança.
Que és de tudo a criança de quem ama.
Que és do amor a criança que deseja.
Que és O desejo do amor na criança que anceia.

Lua bonita,
que pra ti escrevo cartas.
Que és de tudo minha amada.
Que és de mim minha princesa.
Que és do mundo a minha casa
Que és de mim a minha ausência.

Lua sozinha,
sozinha a lua e a solidão.
Que és amiga da escuridão.
Que és o leito de quem dorme.
Que és o sonho que ressente
No sentido que de quem parte.
Quando há amor ausente.

Igor Felix

3h AM

Querida, só te peço algumas horas.
Ofereça-me mais um cigarro e vá deitar.
A lua hoje desce mais que tarde
e eu nunca prometi ficar.

Brindes, jazz e cigarros,
ouço o som da rua lá fora.
Não bebo mais cachaça,
não choro minhas mágoas,
nem sei ao certo se ainda sei
amar ou chorar.

Querida, repousa tuas mãos
nas minhas ao trago
de corpo amarelado e sorrisos
falsos, copo à copo por ai.
Pousa teu olhar nos meus olhos.
Quero que vejas que os olhos
não dizem nada do que deveríamos
sem medo dizer um ao outro.

Tantos telepatas
conversam sozinhos
nas esquinas por ai.
Eu talvez devesse ao menos
te ligar e te chamar para beber.
Enquanto você invadi meus pensamentos,
eu suplico que me explique do medo
que tenho, de te falar como as músicas
poeticamente falam do amor.

Brindes, jazz e cigarros.
A porta está trancada,
a casa está vazia,
deixei as chaves ao lado.
Estarei por ai.

Com a lua no breu das vielas,
nos endereços das esquinas
a espera da poesia,
pensando em você.


Igor Felix